Senhor meu dono,
Já faz muito tempo que cheguei, o senhor ainda lembra?
Eu, filhotinho inofensivo e indefeso, arrancado do seio de minha mãe (que nem sei quem era), vim choramingando e com medo, cumprir a missão de todo bom cão: proteger o seu dono.
Passou-se muito tempo, mas eu ainda lembro, até com certa graça, das palmadas que levei por não conseguir esconder meu medo de ficar só e, à noite, me pôr a chorar.
Após alguns dias, comecei a compreender o que eu era e o que se esperava de mim: um guardião!
O senhor brincava comigo, ria das minhas peraltices e eu fazia de tudo para diverti-lo.
Passei frio e fome, mas jamais lhe pedi nada além de um osso para saciar o meu voraz apetite.
Vigiei sua casa dia e noite, fielmente, e nunca me constrangi em lamber a mão, nos momentos de alegria, daquele que me açoitava em seus momentos de raiva.
Jamais lhe pedi nada, meu senhor... nem cama para dormir, nem comida saborosa, nem mesmo um pouco de carinho. O que recebi, e de bom grado, foi por sua vontade apenas.
Hoje, que a velhice se abateu sobre mim, pela primeira vez tenho algo a lhe pedir...
Sei que não tenho mais a mesma força; sei que não imponho mais tanto medo como em minha juventude; nem meu latido assusta tanto quanto antes, só a minha lealdade continua a mesma. Estou velho e alquebrado dos embates caninos que me meti ao longo de minha curta passagem por esta vida, mas gostaria de lhe pedir que não me largue à minha própria sorte, quando chegar-me a derradeira hora, para morrer como um cão sem dono.
Não estou lhe pedindo que trate de minhas enfermidades, nem que me reserve um funeral pomposo. Só quero morrer como o cão fiel que sempre fui: cuidando do quintal do meu dono.
Se minha caduquice e doença lhe causar alguma repulsa e a até mesmo minha presença já lhe for desagradável, mata-me tu mesmo, meu senhor! Prefiro morrer pelas mãos de meu dono, que ser abandonado para padecer sozinho.
Posso não ter o mesmo valor de antes, mas o que lhe peço é em memória aos bons momentos que passamos juntos, pelas alegrias compartilhadas e em nome da minha gratidão.
Leia em meus olhos, já enevoados pela idade, este último pedido e aceite-o, não como chantagem emocional, mas como o desejo de um amigo fiel que só quer ter a honra de morrer ao lado daquele ao qual dedicou sua vida inteira. Se for atendido, ela já terá valido a pena.
Seu amigo, o cão.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
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